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CRITICAL REVIEW : sound ensemble (to come)
Alexandra Balona

Ensemble sonoro [por vir]

Evento Technical Unconscious, John Grzinich e estudantes Áudio FBAUP

03 Maio 2013, FBAUP, Museu, 19:00

Texto: Alexandra Balona


Na sala do Museu da FBAUP, sob a luz ténue do fim de tarde, uma linha de espectadores sentados junto à parede circunda o espaço. No centro estão dispostos, aleatoriamente, objectos banais de uso doméstico, como utensílios de cozinha, ou materiais de construção, tais como pregos, tijolos de vidro ou cerâmicos. Da sala contígua vemos, por duas passagens laterais, fragmentos de uma projecção de vídeo na parede do fundo. É este o contexto cénico do evento apresentado pelo artista americano John Grzinich e cinco estudantes de Áudio (FBAUP), resultado de um workshop desenvolvido na Cooperativa dos Pedreiros, no âmbito do programa cultural Technical Uncouncious*1, por sua vez associado ao projecto europeu Soft Control: Art, Science and the Technological Uncouscious*2. No final de 2014, serão apresentadas as versões definitivas deste e de outros projectos produzidos pelo Technical Uncouncious

Artista e estudantes dirigem-se, calmamente, para os objectos com os quais negoceiam um processo de manipulação das suas potencialidades sonoras. Com simples gestos de percussão, fricção, sopro, e suplantando as expectativas funcionais dos objectos, estes corpos entregam-se, em movimentos banais, a uma deriva acústica exploratória, num registo subtil e sempre atento ao ensemble que os rodeia. Instala-se, a par do movimento dos performers, um vaguear de sons pela sala, ritmos que se intercalam, camadas sonoras que dialogam em tons diversos. Em simultâneo, acedemos a fragmentos da projecção de vídeo da sala contígua - imagens e sons de uma acção semelhante, ocorrida no espaço da Cooperativa dos Pedreiros, interagem com a “composição em tempo real”.

Há uma negociação (de forças) entre os intervenientes mediada pelo som. Este, elemento do domínio do imaterial é, todavia, localizável e topográfico – constrói espaço e presença, seja na percepção periférica de cada um, como na esfera da comunidade. E são diversas as premissas deste projecto: Como libertar os corpos dos constrangimentos sociais e culturais através da exploração incorporada do som? Até onde se amplia a percepção corporal do espaço, dos objectos encontrados e da sua materialidade, numa perspectiva autopoiética de construção da realidade? Como promover, através do som, um relacionamento horizontal e não hierárquico entre os intervenientes? Como construir um ensemble sonoro entre pessoas estranhas?

Além das possíveis associações ao site-specific, ou à arte sonora, este projecto, naquilo de terá de “ensaio para uma comunidade sonora”, poderia remeter-nos para o processo de Composição em Tempo Real, desenvolvido pelo coreógrafo João Fiadeiro, ou ainda para o seu mais recente projecto em parceria com a antropóloga brasileira Fernanda Eugénio: o AND-Lab. 

No projecto do AND-Lab, João Fiadeiro e Fernanda Eugénio propõem uma investigação entre as artes performativas e a antropologia contemporânea, com enfoque nas questões de criatividade e convivência.  O laboratório usa o método de Composição em Tempo Real para reflectir/pesquisar sobre o processo individual de pensar/decidir/agir perante um acontecimento, em reciprocidade com a construção de uma plataforma comum de convivência. Composição surge então “não como acto de ‘colocar-se contra’, mas como acto de ‘colocar-se com’”. Criação como “trabalho colectivo, sem sujeito, sem objecto; trabalho ilimitado de re-materialização daquilo que emerge da relação; (...) trabalho no qual ocupamo-nos tão somente em distrairmo-nos suficientemente do Eu para activar a atenção ao entorno e ao manusear não-manipulativo dos encaixes possíveis...”*3

Na proposta de John Grzinich, é evidente a tentativa de construção de um “ensemble” que tem o som como linguagem primordial. Talvez até a possibilidade de uma “comunidade”, e o propósito de (re)pensar a existência-com, ainda que efémera no espaço e no tempo (do workshop, do evento...). E, para tal, um acontecimento foi produzido, de acção em acção, de som em som, sem que fosse sequencial, nem previsível, sem esperar o consenso do diálogo (de um para um) ou a dicotomia (de um sujeito para um objecto) mas que, num percurso em aberto e atento, se foi fazendo a partir do que emerge da relação entre o singular e o todo. Esse seria o ideal do projecto, a meu ver, ainda não plenamente conseguido pela imaturidade do evento, em fase de processo. Reduzir o som do nosso “Eu”, ou até mesmo silenciá-lo, para ouvir o “outro” não é tarefa simples. 

Todavia, assistimos a uma com-posição sonora rica, em que diferentes escalas de acção produziu sons inesperados e combinações aleatórias. Ainda assim, imperaram a atenção e delicadeza do gesto, e a cumplicidade do som, dos corpos e dos olhares, numa tentativa de construir uma autopoiesis (sonora) do comum.


*   http://www.facebook.com/pages/Technical-°©â?Unconscious-°©â?Project/287906041340260

* http://softcontrol.info/

 *In http://andlabpt.blogspot.pt/p/re-°©â?existencia.html